Treinamento de Força para Crianças e Adolescentes

ACADEMIA AMERICANA DE PEDIATRIA (AAP)

O treinamento de força (também conhecido por treinamento resistido) é um componente comum dos programas de atividades esportivas e condicionamento físico para pessoas jovens, embora alguns adolescentes possam utilizar o treinamento de força como um meio de aumentar o volume muscular para melhorar a aparência física. Os programas de treinamento de força podem incluir a utilização de pesos livres, máquinas, tiras elásticas, ou o próprio peso corporal da pessoa que está praticando o treinamento. A quantidade e a forma de resistência utilizada e a freqüência dos exercícios resistidos são determinadas por meio dos objetivos específicos do programa de treinamento.

CRIANCA

BENEFÍCIOS DO TREINAMENTO DE FORÇA
Adicionalmente aos benefícios evidentes (como aumentar a força muscular), os programas de treinamento de força podem ser utilizados na tentativa de melhorar o desempenho esportivo e prevenir lesões, reabilitar lesões, e/ou melhorar a saúde em longo prazo. Similar a outras modalidades de atividades físicas, o treinamento de força tem demonstrado um efeito benéfico em diversos marcadores de saúde mensuráveis, como a aptidão cardiovascular, composição corporal, densidade mineral óssea, perfil dos lípides sanguíneos e saúde mental (psicológica). Em crianças com paralisia cerebral, estudos recentes demonstraram alguns benefícios através do aumento da força muscular, funcionamento físico global e aumento na sensação de bem-estar. Em crianças que se encontram acima do peso, o treinamento resistido está sendo incorporado aos programas de controle do peso corporal como uma atividade que aumenta a taxa metabólica sem causar altos impactos. Similarmente às populações geriátricas, o treinamento resistido em crianças pode estimular o aumento da mineralização óssea, bem como apresenta efeitos positivos na densidade mineral óssea.

DSC_5129

Diversos estudos têm demonstrado que o treinamento de força, praticado com a técnica de treinamento adequada e supervisão criteriosa, pode aumentar a força muscular em pré-adolescentes e adolescentes. A freqüência, o modelo (tipo de resistência adotada), a intensidade e a duração, todos contribuem para a criação de um programa de treinamento apropriado. Os aumentos na força ocorrem com praticamente todos os modelos de treinamento de força com uma duração mínima de 8 semanas e podem ocorrer com o treinamento realizado pelo menos uma vez por semana, embora os programas de treinamento efetuados duas vezes por semana possam ser mais benéficos.
Os programas de treinamento supervisionados adequadamente enfatizando o desenvolvimento do core (ou seja, que estejam focando a musculatura mais profunda (e estabilizadora) do tronco como os músculos abdominais, lombares e glúteos) também são adequados para as crianças e teoricamente auxiliam na aquisição de habilidades específicas às modalidades esportivas e no melhoramento do controle postural. Infelizmente, os ganhos decorrentes do treinamento resistido como força muscular, volume muscular, ou potência desaparecem cerca de 6 semanas após a interrupção do treinamento.

995765_464611196969735_435297812_n

Os exercícios preventivos (pré-reabilitação) se referem aos programas de treinamento de força voltados às áreas comumente submetidas a lesões, tais como os exercícios designados para prevenir lesões (por utilização excessiva) em regiões como o manguito rotador e exercícios para a estabilização escapular, principalmente em modalidades esportivas que utilizam movimentos acima da cabeça. Existem evidências limitadas sugerindo que a pré-reabilitação possa auxiliar na redução das lesões em adolescentes, mas não se sabe se esta medida desempenha os mesmos benefícios em atletas pré-adolescentes, e não há evidências que o treinamento de força irá reduzir a incidência de lesões catastróficas relacionadas à prática esportiva em adolescentes. Pesquisas recentes sugerem uma possível redução nas lesões decorrentes da prática esportiva em estruturas como o ligamento cruzado anterior em garotas adolescentes que combinaram o treinamento resistido com exercícios específicos.

curso- pilates crianca

RISCOS DO TREINAMENTO DE FORÇA

Muito do que se conhece a respeito das lesões associadas com o treinamento de força foi fornecido pela Comissão de Segurança de Produtos ao Consumidor do Sistema Nacional de Vigilância Eletrônica de Lesões dos EUA, que estimou o número de lesões ligadas aos equipamentos de ginástica (musculação). Os dados fornecidos a partir do Sistema não especificam nem a causa da lesão, nem separa as lesões decorrentes da prática recreativa das lesões ocasionadas com a prática competitiva resultante do treinamento de força.

Aparentemente, os programas de treinamento de força adequados não possuem efeitos adversos no crescimento linear, nos discos epifisários ou no sistema cardiovascular, embora cautela deva ser adotada para aqueles jovens esportistas com histórico pré-existente de determinadas patologias.
Crianças que se encontram acima do peso corporal normal podem parecer mais fortes devido ao seu tamanho, mas frequentemente possuem um alto nível de descondicionamento e baixos níveis de força, necessitando da mesma supervisão criteriosa necessária em qualquer programa de treinamento resistido.

academia_adolescentes

DIRETRIZES PARA O TREINAMENTO DE FORÇA

A avaliação médica da criança antes de iniciar um programa formal de treinamento de força pode identificar os fatores de risco para o surgimento de lesões e fornecer uma oportunidade de discutir lesões prévias, dores lombares, condições médicas, objetivos de treinamento, motivos para querer começar tal programa, técnicas de treinamento e expectativas a partir da própria criança e de seus pais. Os jovens devem ser lembrados que o treinamento de força é apenas uma pequena parte de um programa geral de condicionamento físico ou de atividades esportivas. Embora as pesquisas apóiem a segurança e a eficácia do treinamento de força para as crianças, o treinamento não é necessário ou adequado para qualquer criança.
Devido ao fato que a maturação dos sistemas relacionados ao balanço e ao controle postural ocorrem por volta dos 7-8 anos de idade, parece lógico que os programas de fortalecimento muscular não devam começar antes do desenvolvimento de tais habilidades. As crianças também devem avançar a certo nível de proficiência das habilidades em suas modalidades esportivas antes de participarem em um programa sério de treinamento de força para aumento da força muscular, para ocorrerem as adaptações em níveis significativamente potenciais.

musculacao_crianca
Os ganhos de força podem ser adquiridos por meio de diversos métodos de treinamento de força e equipamentos; entretanto, a maioria das máquinas de treinamento de força e equipamentos de academias é designada para pessoas adultas e possuem graduações nas cargas que são incompatíveis para as crianças mais jovens. Os pesos livres requerem um melhor controle do balanço corporal e técnica, entretanto são menores e portáteis, permitem um aumento pequeno e gradual das cargas e podem ser utilizados para os movimentos específicos à modalidade esportiva escolhida.
A execução dos movimentos realizada de forma rápida e explosiva não é recomendada, já que são movimentos que exigem a adoção de técnica e segurança na execução. O esporte do levantamento de peso é distinto do treinamento de força convencional, pois envolve tipos específicos de levantamentos rápidos, tais como o arranque e o arremesso.
Pesquisas limitadas acerca do levantamento de pesos como modalidade esportiva tem revelado a participação de crianças sem apresentar um índice elevado de lesões35-37, e alguns programas apresentam um baixo índice por seguirem o princípio que para ocorrer um acréscimo na carga, a execução dos movimentos deve ser com a técnica correta, evitando assim o surgimento de lesões.

personal-crianças
Assim como ocorre com o treinamento de força geral, a supervisão minuciosa e a aderência à técnica correta de execução dos movimentos são cruciais para um índice reduzido de lesões. Para avaliar os baixos níveis de lesões (devido ao fato que um número cada vez maior de jovens ingressam no levantamento de peso competitivo), a AAP continua hesitante para dar apoio à participação de crianças que se encontram, esqueleticamente falando, imaturas, bem como é contra o envolvimento de crianças no levantamento de força (básico), fisiculturismo, ou a adoção da técnica de 1 RM (1 repetição máxima) como meio de determinar o ganho de força muscular.
Para os propósitos deste artigo, as pesquisas referentes aos ganhos de força e as recomendações a respeito da participação de crianças envolvidas no levantamento de pesos aplicam-se especificamente à atividade do treinamento de força conjuntamente à participação nos programas de exercícios e modalidades esportivas.
Quando crianças e adolescentes são submetidos a um programa de treinamento de força, eles devem iniciar o treino com exercícios de baixa resistência, até que a aquisição da técnica seja perfeita. Os exercícios devem incluir todos os grupos musculares, incluindo os músculos do core (centro) e devem ser praticados por meio da amplitude completa de movimento para cada articulação. Para os ganhos em força muscular, as sessões de treinamento precisam durar pelo menos de 20 a 30 minutos, por 2 a 3 vezes por semana, e continuar com a progressão das cargas de treinamento ou repetições, conforme a força muscular aumenta. O treinamento de força praticado por mais de 4 vezes por semana não parece desempenhar efeitos adicionais e pode aumentar o risco para o surgimento de lesões por uso excessivo (overuse). A supervisão adequada é definida como a relação professor/aluno.

Treino-para-Criança
Os jovens que desejam melhorar suas habilidades esportivas geralmente obterão mais benefícios por meio da prática das habilidades específicas referentes às suas modalidades esportivas do que por meio do treinamento de força isoladamente, embora o treinamento de força deva ser parte de uma abordagem multifacetária do exercício e aptidão física. Se o objetivo em longo prazo for obter benefícios à saúde, então o treinamento de força deve ser combinado com um programa de treinamento aeróbico.

RECOMENDAÇÕES

As técnicas adequadas de treinamento e as precauções relacionadas à segurança devem ser seguidas de maneira que o treinamento de força para as populações de pré-adolescentes e adolescentes seja seguro e eficaz. Antes de iniciar um programa de treinamento de força, é preciso reconhecer se ele é realmente necessário ou qual o nível de habilidade (proficiência) este jovem já adquiriu por meio da prática de sua atividade esportiva. A técnica apropriada e supervisão minuciosa por um instrutor qualificado são componentes críticos em qualquer programa de treinamento de força envolvendo pré-adolescentes e adolescentes.

Referências Bibliográficas
Faigenbaum AD. Strength training for children and adolescents. Clin Sports Med. 2000;19 (4):593 –619[CrossRef][ISI][Medline] Stricker PR. Sports training issues for the pediatric athlete. Pediatr Clin North Am. 2002;49 (4):793 –802[CrossRef][ISI][Medline]
Blundell SW, Shepherd RB, Dean CM, Adams RD, Cahill BM. Functional strength training in cerebral palsy: a pilot study of a group circuit training class for children aged 4–8 years. Clin Rehabil. 2003;17 (1):48 –57[Abstract/Free Full Text]
McBurney H, Taylor NF, Dodd KJ, Graham HK. A qualitative analysis of the benefits of strength training for young people with cerebral palsy. Dev Med Child Neurol. 2003;45 (10):658 –663[CrossRef][ISI][Medline]
Morris FL, Naughton GA, Gibbs JL, Carlson JS, Wark JD. Prospective ten month exercise intervention in premenarchal girls: positive effects on bone and lean mass. J Bone Miner Res. 1997;12 (9):1453 –1462[CrossRef][ISI][Medline]
Blimkie CJ, Rice S, Webber CE, et al. Effects of resistance training on bone mass and density in adolescent females. Can J Physiol Pharmacol. 1996;74 (9):1025 –1033[CrossRef][ISI][Medline]
Falk B, Tenenbaum G. The effectiveness of resistance training in children: a meta-analysis. Sports Med. 1996;22 (3):176 –186[ISI][Medline]
Payne VG, Morrow JR Jr, Johnson L, Dalton SL. Resistance training in children and youth: a meta-analysis. Res Q Exerc Sport. 1997;68 (1):80 –88[ISI][Medline]
Faigenbaum AD, Milliken LA, Loud RL, Burak BT, Doherty CL, Westcott WL. Comparison of 1 and 2 days per week of strength training in children. Res Q Exerc Sport. 2002;73 (4):416 –424[ISI][Medline]
Stricker PR, Van Heest JL. Strength training and endurance training for the young athlete. In: Birrer RB, Griesemer BA, Cataletto MB, eds. Pediatric Sports Medicine for Primary Care. Philadelphia, PA: Lippincott Williams & Wilkins; 2002:83 –94
Ramsay JA, Blimkie CJ, Smith K, Garner S, MacDougall JD, Sale DG. Strength training effects in prepubescent boys. Med Sci Sports Exerc. 1990;22 (5):605 –614
Blimkie CJ. Resistance training during preadolescence: issues and controversies. Sports Med. 1993;15 (6):389 –407[ISI][Medline]
Faigenbaum AD, Westcott WL, Micheli LJ, et al. The effects of strength training and detraining on children. J Strength Cond Res. 1996;10 (2):109 –114[CrossRef]
Kraemer WJ, Fry AC, Frykman PN, Conroy B, Hoffman J. Resistance training and youth. Pediatr Exerc Sci. 1989;1 (4):336 –350
Ozmun JC, Mikesky AE, Surburg PR. Neuromuscular adaptations following prepubescent strength training. Med Sci Sports Exerc. 1994;26 (4):510 –514
Guy JA, Micheli LJ. Strength training for children and adolescents. J Am Acad Orthop Surg. 2001;9 (1):29 –36[Abstract/Free Full Text]
Fleck SJ, Kraemer WJ. Designing Resistance Training Programs. 3rd ed. Champaign, IL: Human Kinetics Books; 2004
Webb DR. Strength training in children and adolescents. Pediatr Clin North Am. 1990;37 (5):1187 –1210[ISI][Medline]
Flanagan SP, Laubach LL, DeMarco GM Jr, et al. Effects of two different strength training modes on motor performance in children. Res Q Exerc Sport. 2002;73 (3):340 –344[ISI][Medline]
Häkkinen K, Mero A, Kauhanen H. Specificity of endurance, sprint, and strength training on physical performance capacity in young athletes. J Sports Med Phys Fitness. 1989;29 (1):27 –35[ISI][Medline]
Cahill BR, Griffith EH. Effect of preseason conditioning on the incidence and severity of high school football knee injuries. Am J Sports Med. 1978;6 (4):180 –184[Free Full Text]
Hejna WF, Rosenberg A, Buturusis DJ, Krieger A. The prevention of sports injuries in high school students through strength training. Natl Strength Coaches Assoc J. 1982;4 (1):28 –31
Hewett TE, Meyer GD, Ford KR. Anterior cruciate ligament injuries in female athletes: part 2—a meta-analysis of neuromuscular interventions aimed at injury prevention. Am J Sports Med. 2006;34 (3):490 –498[Abstract/Free Full Text]
US Consumer Product Safety Commission. National Electronic Injury Surveillance System [database]. Available at:www.cpsc.gov/library/neiss.html. Accessed March 29, 2007
Risser WL, Risser JM, Preston D. Weight-training injuries in adolescents. Am J Dis Child. 1990;144 (9):1015 –1017[Abstract]
Risser WL. Weight-training injuries in children and adolescents. Am Fam Physician. 1991;44 (6):2104 –2108[ISI][Medline]
Mazur LJ, Yetman RJ, Risser WL. Weight-training injuries. Sports Med. 1993;16 (1):57 –63[ISI][Medline]
Weltman A, Janney C, Rians CB, et al. The effects of hydraulic resistance strength training in pre-pubertal males. Med Sci Sports Exerc. 1986;18 (6):629 –638
Bailey DA, Martin AD. Physical activity and skeletal health in adolescents. Pediatr Exerc Sci. 1994;6 (4):330 –347
Steinherz LJ, Steinherz PG, Tan CT, Heller G, Murphy ML. Cardiac toxicity 4 to 20 years after completing anthracycline therapy. JAMA. 1991;266 (12):1672 –1677[Abstract]
Maron BJ, Chaitman BR, Ackerman MJ, et al. Recommendations for physical activity and recreational sports participation for young patients with genetic cardiovascular diseases. Circulation. 2004;109 (22):2807 –2816[CrossRef][ISI][Medline]
American Academy of Pediatrics, Committee on Sports Medicine and Fitness. Adolescents and anabolic steroids: a subject review. Pediatrics. 1997;99 (6):904 –908[Abstract/Free Full Text]
Gomez J, American Academy of Pediatrics, Committee on Sports Medicine and Fitness. Use of performance-enhancing substances. Pediatrics. 2005;115 (4):1103 –1106[Abstract/Free Full Text]
Harris SS. Readiness to participate in sports. In: Sullivan JA, Anderson SJ, eds. Care of the Young Athlete. Elk Grove Village, IL: American Academy of Pediatrics and American Academy of Orthopaedic Surgeons; 2000:19 –24
Stone MH, Pierce KC, Sands WA, Stone ME. Weightlifting: a brief overview. Strength Cond J. 2006;28 (1):50 –66
Byrd R, Pierce K, Reilly L, Brady J. Young weightlifters’ performance across time. Sports Biomech. 2003;2 (1):133 –140[CrossRef][Medline]
Hamill BP. Relative safety of weightlifting and weight training. J Strength Cond Res. 1994;8 (1):53 –57[CrossRef]
Cahill BR, ed. Proceedings of the Conference on Strength Training and the Prepubescent. Rosemont, IL: American Orthopaedic Society for Sports Medicine; 1988:1 –14
Faigenbaum A, Kraemer W, Cahill B, et al. Youth resistance training: position statement paper and literature review. Strength Cond. 1996;18 (6):62 –76
National Strength and Conditioning Association. Strength & Conditioning Professional Standards & Guidelines. Colorado Springs, CO: National Strength and Conditioning Association; 2001. Available at: www.nsca-lift.org/Publications/standards.shtml. Accessed March 29, 2007

Strength Training by Children and Adolescents Council on Sports Medicine and Fitness PEDIATRICS Vol. 121 No. 4 April 2008, pp. 835-840

 

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *